Páginas

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Presente pra quem?

No último domingo, 12 de fevereiro, um crime na cidade de Queimadas (Paraíba) aconteceu e chocou muita gente. A notícia, que parecia fazer parte de um enredo de mau gosto de um filme de terror, daqueles mais sádicos e horríveis, infelizmente não foi ficção.
Dois irmãos, responsáveis por organizar uma festa de aniversário para alguns amigos e amigas (aproximadamente 15 pessoas, ao total) invadiram a comemoração simulando um assalto. Estavam encapuzados e armados. Os "assaltantes" renderam seis mulheres que estavam na festa e as estupraram. Duas dessas mulheres viram que os agressores eram seus conhecidos e por isso, foram executadas. Michele Domingues da Silva (29) e Isabela Pajussara Frazão Monteiro (27). Duas mulheres mortas e mais quatro foram vítimas de uma violência brutal. As investigações apontam que o estupro coletivo tenha sido planejado pelos irmãos com antecedência e as mulheres seriam oferecidas como um presente de aniversário. Os acusados estão detidos (ao total, são 9). Mas me pergunto: E então? Eles estão presos e vão aguardar por julgamento (em liberdade?). Esse é o caminho certo e as providências foram tomadas e eu (e muitas outras mulheres) esperamos de verdade que sejam condenados por essa barbárie.

O ponto principal é que duas vidas foram tiradas e mais quatro violadas. Ninguém faz ideia de como um estupro deixa marcas inimagináveis e inesquecíveis na cabeça de uma pessoa. O nojo, a dor, a humilhação, a depressão. São pessoas que serão condenadas a viver o resto de suas vidas revivendo em suas lembranças momentos de horror, de pânico, de dor. Para os criminosos, que ficarão alguns anos presos, o arrependimento vem fácil. Algumas palavras bonitas são ditas e pronto, se enxergam perdoados. 
E as vítimas? Nenhuma palavra no mundo vai apagar os sentimentos ruins dessas mulheres. Nenhum sabão ou água serão o suficiente para lavar e apagar o nojo de ter sido violada.

É incrível que, quando debatemos sobre casos de violência contra a mulher, sempre apareça alguém pra dizer que "isso é um absurdo, afinal as mulheres já conquistaram igualdade". Em que país? No Brasil é que não é.
Muitos homens se acham no poder de nossos corpos e nossas vontades. Alguns realmente acreditam que mulheres são propriedades, como se fossem carros ou imóveis. Alguns, até acham estupro justificável. Pra esse tipo de pessoa, não precisa ser consensual: basta que o homem queira e a vontade da mulher é minimizada instantaneamente.

E essa sensação de poder é fruto de uma cultura machista. Onde somos vendidas e objetificadas pela mídia em seus maravilhosos comerciais de cerveja e lingerie e isso é visto como normal. Onde somos ridicularizadas e minimizadas no campo profissional e isso é normal. Onde servimos de enredo pra piadas engraçadas de como somos burras, putas, péssimas motoristas e isso é normal. Onde temos de reprimir nossas vontades, nossos corpos, nossa sexualidade, nossa liberdade e isso é normal. Onde somos xingadas quando dizemos que gostamos de sexo e isso é normal. Onde a nossa missão na terra é ter filhos e cuidar de uma casa e de nossa família e isso é normal. A cultura continua sendo machista e isso continua sendo normal. E a maioria não vê nenhum erro nisso.


O crime em Queimadas, na Paraíbao crime no Rio de Janeiroo crime no Paranáo crime que aconteceu em rede nacionalo crime em São Paulo. Quantos crimes ainda vão precisar acontecer para que a sociedade perceba que vivemos em um mundo machista? Quantas mulheres ainda precisarão sofrer violação, violência e humilhação para que as pessoas entendam que esse tipo de crime não deve ser visto como uma oportunidade e muito menos como um presente?


Este post faz parte da blogagem coletiva de repúdio ao caso de Queimadas, realizado pelas Blogueiras Feministas. Essa foi minha primeira vez participando.

2 comentários:

  1. Ótimo texto, Ana!
    Feminismo é totalmente desnecessário, né? Só se for para alguns poucos homens, aqueles perversos, que continuam a usufruir da cultura falocêntrica.
    Abs.

    ResponderExcluir